Um texto sobre o medo de começar a terapia, o encontro com aquilo que dói e o caminho que se constrói ao longo do processo.
Há pessoas que chegam à terapia depois de muito tempo tentando não olhar para determinadas coisas.
Algumas chegam porque já não conseguem dormir como antes. Outras porque estão cansadas de pensar demais, de sentir demais, de repetir as mesmas situações ou de não compreender por que determinadas coisas doem tanto.
E existe também quem diga:
“Eu tenho medo de mexer no passado.”
Talvez porque algumas histórias, quando são revisitadas, ainda doem.
Decidir fazer terapia nem sempre é uma decisão fácil. Às vezes parece mais simples tomar um remédio, tentar esquecer, ocupar a cabeça, trabalhar mais, distrair-se ou simplesmente seguir em frente.
E não há nada de errado em reconhecer a importância dos medicamentos quando eles são necessários. Eles fazem parte do cuidado de muitas pessoas.
Mas existe uma diferença entre aliviar um sofrimento e compreender como ele se apresenta na nossa experiência.
A terapia pode ser um convite para olhar para aquilo que, durante muito tempo, ficou sem nome.
Por onde começa uma terapia?
Muitas vezes, começa por uma figura.
Algo que está presente e chama a atenção naquele momento.
Uma ansiedade que não passa.
Uma tristeza que aparece sem que a pessoa consiga compreender.
Uma irritação constante.
Um medo.
Uma dificuldade nos relacionamentos.
Uma sensação de estar perdido.
É aquilo que conseguimos perceber, sentir ou falar, mesmo que ainda não saibamos exatamente o que significa.
Na perspectiva da Gestalt-terapia, essa figura emerge em relação a um fundo. E, durante o processo terapêutico, aquilo que inicialmente aparece de maneira fragmentada pode começar a ganhar contorno.
Não significa que exista uma resposta escondida esperando para ser encontrada.
Significa que, no encontro terapêutico, podemos começar a olhar para a experiência com mais presença.
Às vezes, uma fala traz outra.
Uma lembrança se aproxima.
Uma sensação no corpo ganha significado.
Uma emoção que parecia não ter relação com determinada situação começa a fazer sentido.
E, pouco a pouco, aquilo que estava no fundo pode emergir.
Mas mexer no passado dói?
Pode doer.
Assim como pode trazer alívio, compreensão, surpresa, raiva, tristeza ou até mesmo uma sensação de liberdade.
O objetivo da terapia não é fazer a pessoa sofrer novamente.
É ajudá-la a entrar em contato com aquilo que hoje ainda produz efeitos em sua vida, respeitando seus limites e o seu tempo.
Por isso, não existe uma receita dizendo quantas sessões uma pessoa precisa fazer.
Não podemos prever exatamente quanto tempo levará uma terapia.
Cada pessoa chega com uma história, uma maneira própria de sentir, de se relacionar e de enfrentar aquilo que a vida apresenta.
O processo também não é uma linha reta.
Há momentos de descoberta.
Há momentos de silêncio.
Há momentos em que parece que nada está acontecendo.
E há momentos em que algo se reorganiza por dentro.
A terapia é uma viagem
Talvez seja possível pensar a psicoterapia como uma viagem.
Quando alguém decide começar, existe um ponto de partida.
Existe aquilo que trouxe a pessoa até ali.
Mas ninguém sabe exatamente tudo o que encontrará no caminho.
Podemos prever que algumas dores aparecerão.
Podemos imaginar que algumas descobertas serão importantes.
Podemos reconhecer algumas perguntas que precisam ser feitas.
Mas o caminho vai se construindo enquanto caminhamos.
E talvez exista, sim, um destino.
Não necessariamente o lugar onde todos os problemas desaparecem.
Mas um lugar em que a pessoa consegue olhar para sua própria história de uma maneira diferente.
Com mais consciência.
Mais possibilidades.
Mais liberdade para escolher como deseja seguir.
Porque, para quem começa uma terapia, pode haver um final de processo.
Mas chegar ao destino exige fazer a viagem.
É preciso começar.
Permitir-se caminhar.
Às vezes parar.
Voltar um pouco.
Descobrir caminhos que não estavam previstos.
E, principalmente, não precisar fazer essa travessia sozinho.
Talvez o medo de olhar para dentro não seja um sinal de que você não deve começar.
Talvez seja apenas o reconhecimento de que existe algo importante esperando para ser cuidado.
E você não precisa saber todo o caminho antes de dar o primeiro passo.
Fazer terapia é essencial.